Quadragésimo sétimo…

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O que você vai ser quando crescer?

Um dinossauro!

Você não pode ser um dinossauro quando crescer…

E quando for bem velho?

Também não, pessoas não viram dinossauros

Então vou ser dentista…

Olha, que legal. Por que?

Porque não posso ser um dinossauro!

E por que raios você gostaria de ser um dinossauro?

Porque eles são fortes e grandes!

Mas você tambem pode ser forte e grande…

Então posso ser um dinossauro?!

Não, você continuaria sendo uma pessoa…

E por que pessoas não podem ser dinossauros?

Porque só podemos ser gente…

E qual a graça?

Sai daqui, moleque…

Quadragésimo sexto…

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Foi-se o tempo, escorreu por entre os dedos e agora vendo, nem parece tanto tempo assim.
Foi o tempo de uma vida, mas será que vida se conta pelo tempo?
Vem o tedio e com ele matamos o tempo, que imortal tropeça na gente e é ele quem nos mata no final.

No fim da vida, no fim dos tempos, alí, quando tudo acabar, o que nos restará pra contar?
Uma historia que não será ouvida e por isso jamais será contada. A historia de nossa vida, da nossa gente perdida no tempo, do nosso tempo perdido na vida, do nosso sonho feito pra acordar.

E entao te pergunto, senhor do tempo… porque nos deu o tempo pra depois tirar?

Quadragésimo quinto…

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Hospital é um lugar dos mais esquisitos nessa vida.
É uma porção de gente que não vemos pelas ruas. As pessoas que estão no hospital parecem que existem só no hospital, como se fossem personagens do The Sims ou coisa do tipo. Se realmente vivêssemos no mundo de Matrix, a falha da normalidade estaria aqui. Parecem robos programados, fingindo reações e sentimentos.

Acho que por isso é estranho ver quem gostamos no hospital… nossos amigos, parentes e namorada ou esposa, não, eles não combinam com essa gente do hospital…São gentes e gentes de diferentes cantos… pessoas felizes celebrando um nascimento, gente com cara de apreensiva, nervosa, triste, chorando…

Fui tomar um café e vi, como se fosse num filme, lado a lado, uma familia feliz, rindo e falando alto, uma alegria que só o nascimento de um novo parente proporciona, de longe se via… e, na mesa ao lado, um homem sozinho, com a cabeça entre as mãos, invisível pra familia eufórica.
Peguei meu café e continuei alí, como observador e imaginando a cena inteira em câmera lenta… para aquela gente eu não existí e pra mim eles provavelmente tambem não existiram…só alí, naquele fragmento que só eu filmei.

O ambiente todo é frio no hospital. Não adianta maquiarem tudo pra parecer um hotel, ele tem cheiro, cor e todo um ar, uma aura de hospital.
Os corredores parecem querer dizer algo, te contar uma história triste, seu dia sofrido, suas pessoas sofridas. Quantas pessoas passaram por aqui, me pergunto? quantas nasceram, quantas morreram? quantas pessoas entraram tristes e sairam felizes? O que essas paredes responderiam, o que elas falariam? Então pensei que, se eu fosse a parede de um hospital e eu pudesse falar, ia preferir ter nascido cego, surdo e mudo…como uma fria parede de hospital.

Quadragésimo quarto…

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O FILTRO SOLAR MAIS CARO DE NOSSAS VIDAS.

Estava em casa a toa, eis que me vem pela memória, não sei bem porque, uma história que contei poucas vezes, se comparado com sua poderosa potencia. Ei-la:

Viagem pra Portugal, trabalhar na filial da empresa onde trabalho há 6 anos e meio, com o privilégio de ir com um dos meus melhores amigos do trabalho, o esguio e simpático José.

Maravilha moderna, baby, aí vamos nós!

Passagens entregues, data marcada, visto do José, ok. Meu visto? ops…um leve problema, o danado não chegou a tempo. E agora, meu deus, não vou mais? vou perder a passagem?…

Vamos assim mesmo, ordenou a empresa que viu nossos vistos e nos ajudou em tudo. “Qdo o visto ficar pronto nós enviamos o danadinho pras Zeuropia…”

Ok, “toca pro aeroporto, SIGA AQUELE AVIÃO!”

Viagem tranquila, e na chegada, lábia na alfandega de Portugal com suas 532 perguntas: de onde veio, por onde vai, etc etc… no fim eu falei exausto pro fiscal: “cara, eu vou voltar pro Brasil, confia em mim”… ele olhou pra mim, pensou… e como num filme bateu o carimbo e falou exatamente assim: “vai la, vai”

Terras portuguesas! Ah, o ar da Europa.. ta, é igual aqui, mas, uhu!

Passados alguns dias, “visto à vista!” (dã).
Mas um problema básico. não podem enviar um visto para entrar em Portugal…para alguem que já ESTÁ em Portugal, o que faz todo sentido. Mas esse “problema” virou uma PUTA solução…
“Vamos enviar o visto pra Madrid”.

Resultado: viagem paga pela empresa pra Madrid e, como o sócio da empresa de Portugal é um fófis, pagou pro José me acompanhar.

Acordamos cedo na Sexta pra pegar o vôo. Fomos pro aeroporto em clima de festa, com direito a levar cavaquinho, pandeiro e percursão pra ir tocando no avião… mentira.. mas inventamos uma dança no caminho que chamamos de: “dança da viagem gratuita”… consistia em balançar os braços na vertical, com as maos abertas e paralelas uma à outra… como se fizéssemos um vaso de barro num torno invisível…bom, enfim…

Fizemos o checkin, fumei um cigarrinho e vambora!

FILA PRA ENTRAR NO EMBARQUE…

Ok! Mais “dancinha da viagem gratuita” enquanto esperávamos nossa vez de passar no raioX de bagagem de mão…

NOSSA VEZ!

Legal! A gente só tinha levado bagagem de mão mesmo, era só um final de semana, maaaaaas… esquecemos do detalhe que não se pode levar na bagagem de mão, nada líquido (valeu pela herança, ein Bin Laden e companhia).

Até aí, ok, foda-se desodorante, foda-se pasta de dente…Eis que o portuga fiscal pega em mãos, em câmera lenta…revelando devagar da mochila… o pro-te-tor so-lar…recem comprado, semi novo, 2km rodados e pagos a incrivel e salgada quantia de 30 euros (cálculo mental resumido, de cabeça, MAIS DE 70 MERRÉIS…e nem dava pra falar “aaaahhhh não, tio… vamos conversar…” o tal jeitinho brasileiro já fez sua má fama no exterior.

“Dá pra enviar por correio alí” disse o senhor.

É isso, vamos salvar esses euros mandando tudo isso pelo correio. Aliás, uma máquina de moedas do correio, tipo de refrigerante ou salgadinho, muito legal…

Moeda na máquina, cai o envelope grandalhão, põe o protetor solar, desodorante.Um não coube, vlupt, pro lixo. Endereço escrito, envelope fechado, plaft, joga na máquina, “dança da viagem gratuita” novamente e vamos pra fila de novo…olhar no relogio pra que né?

Chegamos no avião, ninguém por alí… “Oi, tudo bem? esse vôo é aqui?”
“Sim mas não dá mais pra entrar”
“Não, como assim, não pode ser, peloamordedeus, etcetc”
” Vou tentar ligar no avião pra ver se ainda da tempo…”
“Ah, por favor”
“Oi, tem dois passageiros aqui… sim… sim… ok”

“É, não dá mais tempo”…
“Não, como assim, peloamordedeus, vamosconversarligaladenovotemquedarnãopodeserporfavorligadenovoéatrabalhovãonosmatarporfavor….”

CORRE E VAMOS COMPRAR O PROXIMO VÔO!!!

Ok, fila, fila, fila…
“Troca a passsagem?”
“Tem que pagar multa”
“E o próximo vôo é que horas?”

Tarde demais… não ia dar tempo de chegar em Madrid no horário marcado pra retirar o visto.

Corre pra outra companhia.
Fila, fila, fila… não tem horário.
“Sabe qual outra tem pra Madrid? ah, onde fica o guichê?… certo.. certo…”

CORRE PRO GUICHE… FECHADO!

“Moça, moça… tá fechado aqui, tem outro dessa companhia em algum outro lugar?”
“Pois, tá fechado”
“Sim, eu percebi, mas não tem outro?”
*Deu de ombros com cara de cu
“Ah, vai se foder”

CORRE PRA OUTRO…

fila, fila, fila
“tem?”
“sim”
e o horario ia dar certinho, caso NÃO ERRÁSSEMOS MAIS NADA

Ok, compra passagem pros dois..

400 euros cada…

Ok, engole seco, fecha o olho e passa o cartão.

Nosso retrato era totalmente o oposto do início, quando acordamos e fomos dançando pro aeroporto.

Corremos como loucos, com mochilas de costas pesadíssimas. Nossos pés já estavam doendo, costas e simplismente não abrimos a boca. Estávamos os dois emoldurados, dividindo um fone de ipod com uma música qualquer.

Ainda me dei ao luxo de comer uma banana que tinha na mochila, tomar uma coca da maquina que tinha alí na espera e fumar no fumódromo tosco da sala de embarque.

Subimos no avião, desliguei o ipod, decolagem…

“podem ligar novamente os aparelhos de som”

Som tranquilo, acho que era um Jack Johnson, pra acalmar, avião estável, sono querendo chegar…olho fechando…Acordo com um cutucão, era o José, com a cara desolada, imagino que a mesma que a minha…

“Cara, desculpa te acordar, é que eu pensei agora. A gente perdeu a ida pra Madrid…”

“Hum…?”

“A volta não… não precisávamos ter comprado agora o vôo ida-e-volta…”

Eu coloquei meu fone… olhei pra frente, fechei os olhos e só pensava em morder minha mão até mastigar o cotovelo…

Para ajudar, o protetor solar chegaria em nossa casa de Portugal dias depois, quando já tivéssemos “esquecido” tudo isso, para nos olhar e dizer, na lingua dos protetores solar:

“babacas”

Quadragésimo terceiro…

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De onde veio nosso Mundo? (Parte 1 – prosa)

Apertou o lábio inferior bem forte contra o superior. Seus olhos, grandes e cor de mel, eram agora pequenos, apertados, com um tom repentinamente vermelhos à sua volta. A bochecha encheu de ar por uma fração de segundos e em seguida murchou, sentindo uma gota escorrer.
A primeira foi limpa às pressas. A segunda foi deixada alí, esquecida pelo tempo.

Deste choro, como que dividido em milhões de partes no tempo, foram nascendo rios, lagos e mares. E destas águas, que devagar escorriam, ainda dentro de seus olhos vermelhos, foram escoando, moldando terras, fazendo colinas, bosques e florestas.

Há quem diga que foi assim que nosso Mundo se formou. De forma breve, diminuta… do choro de uma menina.

Quadragésimo segundo…

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Adeus poesia…
Te tiro da minha
E jogo na boca é do lixo

Lá, pode simplismente existir
E em sua existência sem sabor
Todo mal se deixar cair

E que feche assim, bem fechado
Pra nenhum homem procurar
Nem seu mais tarado!

Aqui, neste mundo, não cabe mais
Acabou o espaço, porta fechada!
E se te uso, ordinária
É só pra mostrar, que foi usada…

Quadragésimo primeiro…

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Há um mundo, que não posso sonhar
E nesse mundo, uma vida,
Que, quase tanto procuro
Nunca posso encontrar

E nessa vida, uma música
Que começa, quase muda
Num assobio, num cochicho
Posso ouvir, mas não tocar

Um mundo sem certo ou errado
Sem saída, sem lado
Não importa se esta calor
Se está quente, é gelado

E o inverso se faz verso
No inverno, é verão
As casas são de desenho
Que se desenham, por solidão

E toda a mágica, toda ciência
Todo santo, toda a calma
Todo pedaço e toda gente
Se desfaz como gota, se embaralha

E quando paro
E quando penso
Onde está esse mundo
O mundo que ninguém fala?

Está alí, no fim da rua
A que começa,
Mas não acaba…

Quadragésimo…

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Não quis nem saber, virei as costas e disse tchau.
Mesmo os longos 10 anos não me fizeram olhar pra trás e mostrar ao menos um pouco de respeito, não, o último adeus foi assim, sem o gostinho de despedida, sem um abraço apertado de quem vai sentir saudades.

Claro que foi forçado, não é que acabou o amor. Por isso a frieza nos sentidos, a frieza nos sentimentos, na fala e no tom. Afinal, foram 10 anos de companhia, e, como dizem por aí, 10 anos não são 10 dias.

Ainda me lembro quando conheci. No começo nos víamos tão pouco, só de final de semana. Mas com o tempo essa vontade de se ver foi crescendo, crescendo, que nem nos demos conta. Passado alguns anos éramos como unha e carne. Seja na faculdade, na rua, em casa, no trabalho. Companhia para tudo, para quase todas as horas e, quando eu achava estar sozinho, lá estava, segurando em minha mão e se fazendo presente nos momentos que mais precisava.

No fundo sempre soubemos, não é? Desde o começo…um dia, teríamos de nos separar. Há quem diga que até demoramos, que nossa relação já não era de alegria e que o melhor era acabar de vez a esperar um dos lados sofrer, e cá entre nós, quem sairia mal dessa seria eu e você sabe disso.

Quando vejo alguém com você ainda sinto uma pontinha de ciúme, penso como seria voltar atrás, pedir desculpas e dizer que errei em acabar com tudo.
Mas vou ser forte, dessa vez sinto que serei, portanto… adeus ex-amigo, ex-companheiro…a partir de agora sou seu ex-fumante.

Trigésimo oitavo…

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Quanto tempo se passou desde o antes?
Naquele tempo que as mulheres eram mais cavalheiras…

Era só verem um homem indo em direção ao carro, que corriam abrir a porta do veículo para o homem repousar solenemente seu corpo robusto no banco do passageiro.
No restaurante não titubeavam em sacar a carteira e o cartão e dizer em tom de alegria: “Deixa que eu pago, amor”.

Abrir a tampa da geleia, trazer flores e ajudar com as compras eram apenas algumas dessa antiga e verdadeira arte em ser gentil das mulheres.

Os homens ficavam sem jeito, falavam: “Não, que isso, deixa…”. Mas nada as faziam parar, era um ímpeto, uma vontade interna de serem cavalheiras a todo o custo.

Onde isso foi parar?

Onde nós, homens, erramos para fazer este costume desaparecer da face da terra e, como num jogo de cartas onde tudo muda, ouvir uma mulher virar para um homem, com a cara mais deslavada do universo e blasfemar:

“Você tinha que ser mais cavalheiro.”

O mundo realmente mudou…