
O FILTRO SOLAR MAIS CARO DE NOSSAS VIDAS.
Estava em casa a toa, eis que me vem pela memória, não sei bem porque, uma história que contei poucas vezes, se comparado com sua poderosa potencia. Ei-la:
Viagem pra Portugal, trabalhar na filial da empresa onde trabalho há 6 anos e meio, com o privilégio de ir com um dos meus melhores amigos do trabalho, o esguio e simpático José.
Maravilha moderna, baby, aí vamos nós!
Passagens entregues, data marcada, visto do José, ok. Meu visto? ops…um leve problema, o danado não chegou a tempo. E agora, meu deus, não vou mais? vou perder a passagem?…
Vamos assim mesmo, ordenou a empresa que viu nossos vistos e nos ajudou em tudo. “Qdo o visto ficar pronto nós enviamos o danadinho pras Zeuropia…”
Ok, “toca pro aeroporto, SIGA AQUELE AVIÃO!”
Viagem tranquila, e na chegada, lábia na alfandega de Portugal com suas 532 perguntas: de onde veio, por onde vai, etc etc… no fim eu falei exausto pro fiscal: “cara, eu vou voltar pro Brasil, confia em mim”… ele olhou pra mim, pensou… e como num filme bateu o carimbo e falou exatamente assim: “vai la, vai”
Terras portuguesas! Ah, o ar da Europa.. ta, é igual aqui, mas, uhu!
Passados alguns dias, “visto à vista!” (dã).
Mas um problema básico. não podem enviar um visto para entrar em Portugal…para alguem que já ESTÁ em Portugal, o que faz todo sentido. Mas esse “problema” virou uma PUTA solução…
“Vamos enviar o visto pra Madrid”.
Resultado: viagem paga pela empresa pra Madrid e, como o sócio da empresa de Portugal é um fófis, pagou pro José me acompanhar.
Acordamos cedo na Sexta pra pegar o vôo. Fomos pro aeroporto em clima de festa, com direito a levar cavaquinho, pandeiro e percursão pra ir tocando no avião… mentira.. mas inventamos uma dança no caminho que chamamos de: “dança da viagem gratuita”… consistia em balançar os braços na vertical, com as maos abertas e paralelas uma à outra… como se fizéssemos um vaso de barro num torno invisível…bom, enfim…
Fizemos o checkin, fumei um cigarrinho e vambora!
FILA PRA ENTRAR NO EMBARQUE…
Ok! Mais “dancinha da viagem gratuita” enquanto esperávamos nossa vez de passar no raioX de bagagem de mão…
NOSSA VEZ!
Legal! A gente só tinha levado bagagem de mão mesmo, era só um final de semana, maaaaaas… esquecemos do detalhe que não se pode levar na bagagem de mão, nada líquido (valeu pela herança, ein Bin Laden e companhia).
Até aí, ok, foda-se desodorante, foda-se pasta de dente…Eis que o portuga fiscal pega em mãos, em câmera lenta…revelando devagar da mochila… o pro-te-tor so-lar…recem comprado, semi novo, 2km rodados e pagos a incrivel e salgada quantia de 30 euros (cálculo mental resumido, de cabeça, MAIS DE 70 MERRÉIS…e nem dava pra falar “aaaahhhh não, tio… vamos conversar…” o tal jeitinho brasileiro já fez sua má fama no exterior.
“Dá pra enviar por correio alí” disse o senhor.
É isso, vamos salvar esses euros mandando tudo isso pelo correio. Aliás, uma máquina de moedas do correio, tipo de refrigerante ou salgadinho, muito legal…
Moeda na máquina, cai o envelope grandalhão, põe o protetor solar, desodorante.Um não coube, vlupt, pro lixo. Endereço escrito, envelope fechado, plaft, joga na máquina, “dança da viagem gratuita” novamente e vamos pra fila de novo…olhar no relogio pra que né?
Chegamos no avião, ninguém por alí… “Oi, tudo bem? esse vôo é aqui?”
“Sim mas não dá mais pra entrar”
“Não, como assim, não pode ser, peloamordedeus, etcetc”
” Vou tentar ligar no avião pra ver se ainda da tempo…”
“Ah, por favor”
“Oi, tem dois passageiros aqui… sim… sim… ok”
“É, não dá mais tempo”…
“Não, como assim, peloamordedeus, vamosconversarligaladenovotemquedarnãopodeserporfavorligadenovoéatrabalhovãonosmatarporfavor….”
CORRE E VAMOS COMPRAR O PROXIMO VÔO!!!
Ok, fila, fila, fila…
“Troca a passsagem?”
“Tem que pagar multa”
“E o próximo vôo é que horas?”
Tarde demais… não ia dar tempo de chegar em Madrid no horário marcado pra retirar o visto.
Corre pra outra companhia.
Fila, fila, fila… não tem horário.
“Sabe qual outra tem pra Madrid? ah, onde fica o guichê?… certo.. certo…”
CORRE PRO GUICHE… FECHADO!
“Moça, moça… tá fechado aqui, tem outro dessa companhia em algum outro lugar?”
“Pois, tá fechado”
“Sim, eu percebi, mas não tem outro?”
*Deu de ombros com cara de cu
“Ah, vai se foder”
CORRE PRA OUTRO…
fila, fila, fila
“tem?”
“sim”
e o horario ia dar certinho, caso NÃO ERRÁSSEMOS MAIS NADA
Ok, compra passagem pros dois..
400 euros cada…
Ok, engole seco, fecha o olho e passa o cartão.
Nosso retrato era totalmente o oposto do início, quando acordamos e fomos dançando pro aeroporto.
Corremos como loucos, com mochilas de costas pesadíssimas. Nossos pés já estavam doendo, costas e simplismente não abrimos a boca. Estávamos os dois emoldurados, dividindo um fone de ipod com uma música qualquer.
Ainda me dei ao luxo de comer uma banana que tinha na mochila, tomar uma coca da maquina que tinha alí na espera e fumar no fumódromo tosco da sala de embarque.
Subimos no avião, desliguei o ipod, decolagem…
“podem ligar novamente os aparelhos de som”
Som tranquilo, acho que era um Jack Johnson, pra acalmar, avião estável, sono querendo chegar…olho fechando…Acordo com um cutucão, era o José, com a cara desolada, imagino que a mesma que a minha…
“Cara, desculpa te acordar, é que eu pensei agora. A gente perdeu a ida pra Madrid…”
“Hum…?”
“A volta não… não precisávamos ter comprado agora o vôo ida-e-volta…”
Eu coloquei meu fone… olhei pra frente, fechei os olhos e só pensava em morder minha mão até mastigar o cotovelo…
Para ajudar, o protetor solar chegaria em nossa casa de Portugal dias depois, quando já tivéssemos “esquecido” tudo isso, para nos olhar e dizer, na lingua dos protetores solar:
“babacas”